“O frio não pesa igual sobre todos. Há quem o sinta primeiro e mais fundo: quem vive em casas mal isoladas, quem não pode simplesmente “aquecer-se mais”. E quando o frio ou o calor chegam ao extremo, não são apenas incómodos, também matam, sobretudo os mais idosos e vulneráveis. A desigualdade urbana mede-se assim: em desconforto, risco e vulnerabilidade.
E depois há o frio cá fora, no espaço público. O frio não é só temperatura: é a forma como a cidade nos responde. Quando o vento transforma ruas em corredores, quando a sombra se torna permanente, quando a humidade sobe do chão e entra nos ossos, a rua deixa de ser encontro e passa a ser travessia. Caminha-se menos, vive-se menos fora de portas.
Durante demasiado tempo planeámos como se o clima fosse fixo. Hoje já não é. As alterações climáticas trazem extremos: mais frio e mais calor. Cidades que nunca viram neve acordam hoje de manto branco. Outras, que nunca tocaram os 40 graus, veem o espaço público a ferver, a sombra a faltar, a rua a expulsar.
E é aqui que o planeamento deixa de ser apenas desenho e passa a ser amparo. Mesmo com bom transporte público, o frio e o calor castigam o “último quilómetro”: o caminho até à paragem, a espera, o transbordo exposto. Uma cidade pode ter rede e, ainda assim, falhar no essencial: andar e esperar com dignidade.
Por isso, planear hoje exige termos chão seguro, paragens que protegem do vento e da chuva, interfaces confortáveis, percursos diretos e abrigados, ruas de inverno iluminadas. E no verão, sombra contínua, água, banco para sentar. Porque a cidade do futuro não será a que ignora o frio e o calor. Será a que, apesar deles, continua a ser abrigo”.
Paula Teles com o artigo de opinião “Frio e calor desenham cidades” na coluna semanal do JN.
