Notícia

Continuamos a morrer na estrada

Esta terça-feira, na coluna semanal do JN, Paula Teles com o artigo de opinião “Continuamos a morrer na estrada”

Tinha decidido não voltar a escrever sobre acidentes rodoviários. Talvez por cansaço, talvez por sentir que tudo já tinha sido dito. Mas os números desta quadra impediram-me dessa decisão.

A estrada, nesta altura do ano, é promessa e regresso, é pressa e saudade. É o desejo de chegar. E, no entanto, há sempre quem não chegue. Os dados da operação Páscoa 2026 são claros: 2008 acidentes, 18 mortos, 42 feridos graves e 668 feridos ligeiros (fonte: ACP, 11h, 6 de abril). Números frios, que não mostram o vazio deixado por cada vida interrompida.

Mas o mais inquietante está nas causas. Dos 1295 detidos, cerca de 40% conduziam sob o efeito do álcool e quase 20% não tinham habilitação legal. Isto não é acaso, é escolha. E essa escolha não é individual, a estrada é um espaço partilhado.

Infelizmente, há uma falha evidente de cultura de segurança rodoviária. Vê-se todos os dias: ultrapassagens perigosas, excesso de velocidade, uso do telemóvel, desrespeito pelas regras. A banalização do risco tornou-se rotina.

Destes 700 feridos na Páscoa, o dobro do ano passado, quantos ficarão incapacitados? Quantas famílias terão de viver com isso para sempre? Um acidente não termina no impacto, prolonga-se na dor, na dependência, na perda de autonomia. Há também um custo económico enorme. E a pergunta impõe-se: não seria mais eficaz investir na prevenção? Campanhas existem há anos, mas não chegam.

Talvez seja tempo de agir de outra forma. Mais fiscalização, mais exigência. Porque conduzir mal não é uma escolha privada, é um risco coletivo que carece de responsabilização.

E enquanto nada mudar, continuaremos a contar números. Sempre diferentes. Sempre com a mesma dor.

Paula Teles com o artigo de opinião “Continuamos a morrer na estrada” na coluna semanal do JN.