Notícia

Quando o transporte exclui

Esta terça-feira, na coluna semanal do JN, Paula Teles com o artigo de opinião “ Quando o transporte exclui”

Segundo o “Expresso” de 20 de maio, com base num estudo para a Greenpeace, mais de 75% dos portugueses dizem nunca ou raramente usar transportes públicos e quase 70% admitem não os utilizar. Nas zonas rurais, 22% das pessoas afirma não ter serviço adequado. Portugal surge assim entre os países europeus com menor utilização de transporte coletivo. Estes números revelam um retrato duro do país que temos.

Portugal não tem apenas um problema de trânsito. Tem um problema de dependência. Dependência do automóvel. Dependência de políticas públicas que aceitaram como normal que milhões de cidadãos precisem de carro para trabalhar, estudar, ir ao médico ou viver.

E depois culpamos as pessoas por usarem automóvel.

Mas ninguém escolhe livremente o carro quando ele é a única forma de chegar à vida.

Durante anos tratámos a mobilidade como uma questão técnica: mais linhas, mais passes, mais interfaces. Tudo isso é importante. Mas o problema é mais profundo. Construímos cidades dispersas e territórios onde o transporte público deixou de competir com o automóvel.

Agora queremos fazer uma transição climática sem corrigir esta desigualdade. É fácil penalizar veículos antigos. Difícil é garantir alternativas às famílias que vivem longe dos centros urbanos e têm baixos rendimentos.

A mobilidade tornou-se uma forma de exclusão social.

Transporte público não é assistência social. É infraestrutura de democracia. É acesso à vida.

Um país moderno não é o que tem mais carros elétricos. É o que permite às pessoas deslocarem-se com dignidade, independentemente do rendimento ou do código postal.

Nenhum país se desenvolve verdadeiramente deixando metade do território para trás.

Paula Teles com o artigo de opinião “Quando o transporte exclui” na coluna semanal do JN.