Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Especialistas, mas nem tanto”
Vivemos no tempo das especializações. Ou melhor, das micoespecializações. Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos e a vida começa a ficar difícil de gerir.
Levamos o carro à oficina porque acendeu uma luz. Resolvem o problema eletrónico e, no dia seguinte, descobrimos que não temos travões. “Mas esteve ontem na oficina!” Pois esteve. Só que ninguém viu os travões.
Na saúde, dói-nos qualquer coisa e começa a peregrinação: ortopedista, neurologista, vascular, fisiatra. Cada um observa a sua parcela, dá a sua sentença e a dor continua. Meses depois, já com um mestrado informal em medicina, somos nós que tentamos juntar as peças. Encontrar quem olhe para o corpo inteiro tornou-se raro.
Nas cidades acontece o mesmo. Muda-se uma rua para alterar o trânsito, mas esquecem-se acessibilidades, árvores, drenagem ou pavimentos permeáveis. Temos excelentes engenheiros, arquitetos, paisagistas e especialistas em mobilidade. O problema é que nem sempre se encontram à mesma mesa.
Em casa, chega o eletricista e fura o cano. Vem o canalizador e estraga a parede. Para resolver um problema, precisamos de seis contactos e férias.
Até na cozinha: o pizzaiolo não faz francesinhas e o cozinheiro de peixe pode não saber fazer um cozido. E quem antigamente ajudava “em casa”? Agora uma pessoa limpa, outra passa, outra cozinha e outra toma conta das crianças.
Especialistas são indispensáveis. Mas talvez tenhamos exagerado na fragmentação do saber. Num mundo cada vez mais complexo, precisamos de pessoas capazes de cruzar conhecimentos, conversar entre profissões e olhar para o todo.
Porque, antes de saber tudo sobre uma peça, convém perceber como funciona a máquina.
Fonte: Jornal de Notícias
Paula Teles com o artigo de opinião “Especialistas, mas nem tanto” na coluna semanal do JN.
