Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Mobilidade depois de dia 22”
A Semana Europeia da Mobilidade termina, como todos os anos, a 22 de setembro, com o “Dia Europeu sem Carros”. Durante um dia, algumas ruas libertam-se do automóvel e quase acontece um milagre: ouvimos os pássaros, vemos a paisagem, encontramos o vizinho, caminhamos sem pressa e percebemos que a cidade pode ter outro som, outro ar e outra vida.
Portugal participa há muitos anos nesta iniciativa. Todos os anos multiplicam-se, e bem, diversas atividades: ruas fechadas, caminhadas, bicicletas, conferências e discursos apropriados. O problema é o dia 23.
Não podemos fazer da Semana Europeia da Mobilidade aquilo que tantas vezes fazemos quando surge um problema: criar uma comissão, reunir, refletir – e deixar tudo na mesma. Até porque um dos princípios desta iniciativa europeia é precisamente que dela resulte uma ação permanente.
Já não faltam diagnósticos, conceitos, palavras bonitas e aplausos. Falta transformar o território. E, confesso, começa a ser cansativo concordarmos todos com tudo para depois mudarmos tão pouco ou quase nada.
O planeta dá-nos sinais evidentes. Os fenómenos climáticos extremos sucedem-se e a mobilidade pesa nas emissões. Entretanto, grande parte do espaço das cidades continua entregue ao automóvel, enquanto quem caminha disputa o que sobra. Não se trata de expulsar o carro. Trata-se de termos espaço público para as pessoas.
Que esta Semana termine, então, com menos fotografias e mais decisões. Menos narrativas e mais ruas transformadas. Talvez o verdadeiro sucesso chegue quando já não precisarmos de um “Dia sem Carros” para descobrir como é bonita uma cidade onde as crianças podem voltar a brincar na rua. Enfim, ser casa.
Fonte: Jornal de Notícias
Paula Teles com o artigo de opinião “Mobilidade depois de dia 22” na coluna semanal do JN.
