Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Entregas rápidas, cidades lentas”
As nossas cidades estão a transformar-se em centros de distribuição. O comércio eletrónico trouxe carros, carrinhos, motas, bicicletas e, agora, até trotinetes, que circulam por todo o lado, mas ainda, veículos em segunda fila, passeios ocupados e conflitos com peões, ciclistas e transportes públicos.
Queremos tudo à porta. Compramos hoje, exigimos amanhã e, por vezes, no próprio dia. Mas esquecemos o preço desta comodidade para a vida urbana.
A distribuição de última milha tornou-se um desafio da mobilidade. Não basta trocar carrinhas a gasóleo por elétricas: reduzem-se emissões, mas mantém-se a ocupação do espaço público e os obstáculos à circulação.
É urgente organizar esta atividade: centros de consolidação de mercadorias, pontos de recolha de encomendas, horários de distribuição, lugares de cargas e descargas e fiscalização. Temos novos problemas. Cada cidade precisa de soluções ajustadas às suas ruas.
Mas nenhuma medida resolverá tudo sem uma mudança de atitude.
Voltar a fazer compras no bairro, procurar primeiro no comércio tradicional aquilo de que precisamos, caminhar até às lojas de proximidade, são escolhas que reduzem deslocações de entrega, mitigam impactos e ajudam a manter viva a economia local e circular.
O espaço público não é um armazém gratuito. Os passeios pertencem às pessoas, não às encomendas. A rapidez das entregas não pode ser conseguida à custa da lentidão, da insegurança e da perda de qualidade de vida urbana.
Este terá de ser o caminho: cidades onde a proximidade vale mais do que a pressa. Porque uma cidade eficiente não é aquela onde as encomendas chegam mais depressa. É aquela onde as pessoas vivem melhor.
Fonte: Jornal de Notícias
Paula Teles com o artigo de opinião “Entregas rápidas, cidades lentas” na coluna semanal do JN.
