Notícia

Quem cuida das cidades?

Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Quem cuida das cidades?”

A nossa casa comum, o planeta, está doente. Incêndios, tempestades, furacões e cheias deixam destruição e mortes, revelando como estamos mal preparados para os fenómenos climáticos extremos.

E, como se não bastasse, acrescentamos sofrimento ao sofrimento.

Na Ucrânia, em Gaza e no Médio Oriente, cidades são destruídas por guerras marcadas por interesses económicos e geopolíticos. Perdem-se vidas, casas, escolas, hospitais e memórias. Desaparecem lugares que gerações levaram séculos a construir.

Enquanto estas guerras agravam os desafios da Europa, as nossas cidades enfrentam outra crise: a habitação.

Jovens que não conseguem sair de casa dos pais, famílias incapazes de pagar uma renda, cidadãos afastados dos bairros onde cresceram. Ter uma casa, o mais elementar dos direitos, tornou-se um privilégio.

Do Porto a Madrid, passando por Paris, crescem os protestos e a indignação. Inflamam-se as cidades perante problemas que exigem respostas públicas urgentes.

Afinal, quem cuida das cidades? Quem as protege das guerras, das alterações climáticas e da exclusão social? Quem pensa nas gerações que ainda estão por chegar?

Eu, que dediquei a vida a planear cidades, sofro hoje por antecipação. Sempre acreditei que planear era cuidar, proteger e construir esperança. Mas começo a recear que já não tenhamos tempo para desenhar as cidades com que sonhámos.

Perante tanta destruição, tanta crise e tanta incerteza, parece que estamos a deixar de planear o futuro para passar a reconstruir o presente.

E entristece-me pensar que, em vez de construirmos cidades de esperança para as próximas gerações, tenhamos de lhes deixar a missão de curar as cidades de que não soubemos cuidar.

Fonte: Jornal de Notícias

Paula Teles com o artigo de opinião “Quem cuida das cidades?” na coluna semanal do JN.