Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “A cidade de todos”
Há pessoas que precisam de coragem para fazer aquilo que fazemos sem pensar: sair de casa. Um passeio estreito, uma escada, uma pedra solta na calçada. Pequenos obstáculos para uns. Muros intransponíveis para outros.
Na semana passada, em Lisboa, a Associação Salvador e o Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade, em parceria com a Associação Nacional de Municípios Portugueses, promoveram a assinatura da Carta de Compromisso pela Acessibilidade Universal. Mais de 40 municípios já assumiram a acessibilidade como prioridade.
O compromisso é claro: planos locais de acessibilidade, financiamento próprio, fiscalização, projetos inclusivos, participação da sociedade civil, formação técnica e reconhecimento das boas práticas. Sete prioridades para transformar direitos em realidade.
Há vinte anos, Portugal aprovou legislação para eliminar barreiras arquitetónicas.
Mas continuam a existir pessoas prisioneiras da cidade. Pessoas impedidas de trabalhar, estudar ou simplesmente de ir à rua tomar um café. Não por falta de vontade, mas porque a cidade lhes fechou a porta.
E não nos iludamos: esta cidade inacessível também nos espera. Um dia, as pernas perderão força, o equilíbrio será mais frágil e um degrau ou uma pedra da calçada que hoje ignoramos poderão ser a fronteira entre a liberdade e a dependência.
A acessibilidade não é uma causa de uma minoria. É uma responsabilidade coletiva e uma urgência política. Envelhecer não pode significar, deixar de pertencer à cidade. A acessibilidade não é um favor. É um direito! Parabéns aos municípios que assinaram este compromisso. Mas é preciso cumpri-lo. Porque uma cidade que nos tira a mobilidade nos retira a liberdade.
Fonte: Jornal de Notícias
Paula Teles com o artigo de opinião “A cidade de todos” na coluna semanal do JN.
