Esta terça-feira, na coluna semanal do JN, Paula Teles com o artigo de opinião “MITIGAR O COMBOIO DAS TEMPESTADES”
“A tempestade que devastou a região de Leiria voltou a expor fragilidades antigas: impermeabilização excessiva dos solos, ocupação de zonas de risco, ausência de bacias de retenção, desrespeito por reservas ecológicas e a persistente ilusão de que o território aguenta tudo. Mas o território já não aguenta.
Os solos estão mais secos, mais arenosos, mais vulneráveis. As temperaturas sobem, os incêndios prolongam-se e aproximam-se das cidades, fragilizando encostas e aumentando a instabilidade. As tempestades ganham velocidades que arrastam tudo, e os rios, com caudais imprevisíveis, transbordam levando lama, troncos e fragilidade acumulada. Até as encostas costeiras se desmoronam, ameaçando casas e comunidades inteiras que hoje, num grito, deslizam sobre o mar.
Quando cobrimos o solo com betão e asfalto, retiramos-lhe a capacidade de infiltrar. Quando construímos em leitos de cheia ou junto a linhas de água artificializadas, transformamos episódios extremos em tragédias anunciadas. A água não desaparece, procura caminho. E encontra-o onde menos devíamos permitir: nas casas, nas estradas, nas infraestruturas críticas.
A crise climática está a acelerar processos que antes pareciam exceção. Por isso, o urbanismo do século XX já não serve o século XXI.
Mitigar exige uma nova geração de políticas públicas: solos permeáveis, corredores verdes, drenagem natural, renaturalização de margens e coordenação real entre ordenamento e mobilidade, proteção civil e engenharia.
Não podemos continuar a reconstruir no mesmo lugar, da mesma forma, com os mesmos materiais. A tempestade não foi apenas um fenómeno natural, foi um espelho. E o reflexo exige ação”.
Paula Teles com o artigo de opinião “Mitigar o comboio das tempestades” na coluna semanal do JN.
