Esta terça-feira, na coluna semanal do JN, Paula Teles com o artigo de opinião “Recuperar a oportunidade”.
A Avenida da Boavista podia hoje ser um exemplo de transformação urbana no Porto. Um eixo central com escala para responder aos desafios da mobilidade sustentável e das alterações climáticas. Ainda assim, a sensação é clara: investiram-se milhões, mas continua a faltar espaço seguro para quem anda a pé ou de bicicleta e a paisagem urbana tornou-se uma autoestrada.
O BRT foi apresentado como um avanço na descarbonização e modernização do transporte público. Porém, a realidade mostra, muitas vezes, um autocarro parado no trânsito da Avenida Marechal Gomes da Costa, rodeado por filas de automóveis.
Mais surpreendente é verificar que, apesar do discurso da humanização da cidade, a avenida mantém quatro vias de circulação, por vezes até mais. O automóvel continua a ocupar a maior parte do espaço, enquanto ciclistas e peões permanecem sem infraestruturas verdadeiramente seguras e contínuas.
O paradoxo torna-se evidente quando vemos jovens a usar o próprio canal do metrobus para andar de bicicleta, de skate ou de trotinete. Não é rebeldia urbana: é falta de espaço.
Também aqui se perdeu a oportunidade de reforçar a infraestrutura verde. Um eixo desta dimensão poderia acolher um corredor arborizado capaz de mitigar o calor urbano e tornar mais agradável caminhar ou pedalar numa cidade com temperaturas cada vez mais extremas.
Mas as cidades fazem-se de escolhas e de correções. Recuperar a oportunidade passa por devolver espaço aos modos suaves: criar uma ciclovia contínua, ampliar passeios e plantar árvores que devolvam sombra e conforto.
Porque recuperar a oportunidade é transformar uma avenida dominada por carros num espaço que acolhe quem a vive.
https://www.jn.pt/opiniao/artigo/recuperar-a-oportunidade/18060174
Paula Teles com o artigo de opinião “Recuperar a oportunidade”na coluna semanal do JN.
