Notícia

Um país de contradições

Esta terça-feira, na coluna semanal do JN, Paula Teles com o artigo de opinião “ Um país de contradições”

Estive no Japão para sentir o território, mas, quanto mais reflito, mais difícil se torna formar uma opinião simples. Parte de mim admira a limpeza das ruas, a segurança, a educação cívica, o respeito entre as pessoas e a eficiência dos transportes. Mas outra parte não deixa de se interrogar: qual é o preço de tanta perfeição?

O Japão é, talvez, um dos países onde melhor se percebe que as maiores qualidades e as maiores fragilidades podem nascer da mesma raiz. A disciplina gera civismo, mas também pressão. A dedicação gera prosperidade, mas também exaustão. O sentido de comunidade cria respeito pelo outro, mas pode limitar a individualidade.

Não há lixo no chão, apesar de quase não existirem caixotes do lixo. Mas quase tudo vem embalado: fruta, compras, sacos dentro de sacos. O cuidado com a higiene convive com um consumo de embalagens difícil de compreender.

Também o trabalho revela esta tensão. Num país onde a carreira é identidade e pertença, muitos continuam a trabalhar para além da idade da reforma. E a pergunta impõe-se: quando começa, afinal, o tempo para viver?

A mobilidade é extraordinária. Mas os transportes vivem sobrelotados, as deslocações consomem horas e há quem durma em hotéis-cápsula para descansar mais.

A paisagem verde parece desenhada. Árvores e arbustos são aparados com uma minúcia que revela uma procura constante da perfeição.

E talvez seja essa a grande contradição japonesa: a mesma cultura que produz ordem, beleza e excelência pode também gerar pressão, solidão e suicídio.

Saio daqui com mais perguntas do que respostas. O Japão não é apenas um país extraordinário. É profundamente humano, precisamente por causa das suas contradições.

Paula Teles com o artigo de opinião “Um país de contradições” na coluna semanal do JN.