Notícia

Anda tudo aéreo

Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Anda tudo aéreo”

É tempo de repensar. Se, por um lado, a democratização da viagem nos permitiu “dar mundo, algo essencial ao conhecimento e à valorização humana, por outro, as alterações climáticas, a crise energética, a gentrificação dos destinos e a perda de identidade dos lugares, obrigam-nos a refletir sobre os novos estilos de vida.

O céu já não descansa. Onde antes havia silêncio, há agora um fluxo contínuo de aviões alinhados, suspensos, à espera de tocar terra. Como se o próprio ar estivesse saturado. Como se o mundo tivesse deixado de caber em si.

Lá em baixo, repetem-se corpos em movimento. Filas, portas de embarque, écrans, destinos, partidas. Sempre partidas. Viajar tornou-se leve, fácil, inevitável. Mas também nos acelerou.

À velocidade de um mundo global, a mobilidade deixou de responder às necessidades, passou a criá-las. Uma viagem puxa outra, e depois outra. Há quem já não consiga ficar parado um único fim de semana. E, em muitos casos, já quase só se trabalha para poder partir outra vez.

Mas o planeta não acompanha esta pressa. Está a aquecer, a ficar saturado. E as cidades, cansadas de gente que não fica, que não habita. Moldadas para o consumo rápido, tornam-se apenas cenário de selfies e fotos de telemóvel dos visitantes.

E, ainda assim, continuamos. Queremos, sofregamente, conhecer o mundo, mas estaremos a preservá-lo? A verdade é incómoda: voar tem um custo que não aparece no bilhete. E talvez já tenhamos ultrapassado o ponto em que as vantagens superam os danos. Talvez seja tempo de travar. Talvez tenhamos que limitar os voos de lazer. Redefinir o essencial. Porque a liberdade sem medida aproxima-se do excesso. E o excesso, esse, raramente tem retorno.

Fonte: Jornal de Notícias

Paula Teles com o artigo de opinião “Anda tudo áereo” na coluna semanal do JN.