Esta terça-feira, no JN, a CRÓNICA SEMANAL de Paula Teles “Vinte anos depois”
Fez este sábado vinte anos que Portugal aprovou o Decreto-Lei n.º 163/2006, que deveria garantir a acessibilidade ao espaço construído. Vinte anos. Uma geração inteira. E continuamos a construir cidades que excluem.
Há mais de trinta anos que trabalho nesta causa. Tempo suficiente para perceber que o maior obstáculo nunca foi só técnico. Foi político. Foi cultural. Foi a persistente ideia de que a acessibilidade é um assunto para “alguns”, quando diz respeito a todos.
A OCDE estima que cerca de 60% da população tem mobilidade condicionada – grávidas, pessoas com deficiência, idosos, carrinhos de bebé ou quando transportamos compras. Praticamente todos nós.
Então, porque insistimos em desenhar cidades para pessoas jovens, saudáveis e plenamente autónomas?
Vivemos um dos maiores processos de envelhecimento da nossa história e continuamos a desperdiçar dinheiro público em infraestruturas que já nascem obsoletas. Construímos hoje as barreiras que amanhã custarão milhões a corrigir. Muitas nunca o serão. E cada barreira é uma porta fechada à autonomia, ao convívio, à saúde e à dignidade.
Faça um exercício simples. Pense na sua casa. Conseguirá viver nela até ao último dia da sua vida? E na rua onde mora? Conseguirá sair sozinho para comprar pão? Ir ao jardim? Sentar-se num banco e conversar com um vizinho? Se hesitou, então este problema já é seu.
Uma cidade inacessível não discrimina apenas pessoas com deficiência. Condena, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós. Ignorar isto, vinte anos depois da lei, já não é incompetência. É uma escolha. E uma sociedade que escolhe excluir os mais vulneráveis está, afinal, a desenhar o futuro da sua própria exclusão.
Fonte: Jornal de Notícias
Paula Teles com o artigo de opinião “Vinte anos depois” na coluna semanal do JN.
